Para estudar, ele pegava o livro emprestado com o professor às sextas-feiras e devolvia na segunda. Para fazer as provas seletivas, usava a lan house do bairro — a internet de casa caía toda vez que alguém ligava o chuveiro. Neste mês, aos 17 anos, o estudante virou o primeiro aluno da rede pública do Ceará a ganhar medalha de ouro em uma olimpíada internacional de astronomia, competindo com representantes de 46 países.
A paixão por astronomia começou quando ele tinha 11 anos, assistindo a vídeos no celular da mãe. Na escola pública onde estuda, não havia clube de ciências, nem laboratório, nem professor especialista no assunto. O que havia era um professor de física que, vendo o interesse do aluno, começou a estudar junto no contraturno, sem receber nada a mais por isso.
O meu professor é tão medalhista quanto eu. Esse ouro é metade dele. A outra metade é de todo mundo que acreditou antes de eu acreditar. Medalhista, em entrevista após o resultado
A medalha garantiu uma bolsa integral numa das principais universidades federais do Brasil, onde o estudante pretende cursar Engenharia Aeroespacial. O sonho declarado é trabalhar com exploração espacial e, um dia, voltar pra sala de aula como professor. "Quero ser o professor que o meu professor foi pra mim. Se sobrar um aluno com fome de saber, eu quero ser o cara que empresta o livro".
A escola, emocionada, fez uma homenagem com bolo simples no pátio. O diretor, em um discurso curto, disse uma frase que correu o bairro: "Talento não tem CEP. Oportunidade, às vezes, tem. O que a gente precisa é igualar o CEP da oportunidade".